sexta-feira, 30 de setembro de 2016

PEQUENOS CIENTISTAS



As atividades propostas envolvem a realização de experiências relacionadas com 
o quotidiano das crianças e, sem prejuízo de revestirem um caráter lúdico, 
são enquadradas por estratégias frequentemente adotadas no jardim-de-infância...
Com as devidas adequações, as atividades poderão ser exploradas com crianças de diversas idades, na faixa etária dos 3 aos 6 anos, e poderão, igualmente, ser abordadas pela ordem que o(a) educador(a) considere mais conveniente e/ou mais apropriada. Em casa, estas atividades poderão ser simplificadas, prescindo-se, por exemplo, dos registos.
Atividade sobre a água
Como elemento fundamental à vida, a água está presente na maioria das actividades do nosso dia-a-dia, sendo também uma fonte de brincadeiras e prazer para as crianças. Actividades diárias de higiene, de alimentação ou do brincar proporcionam um grande número de explorações informais: quando brincam com objetos diferentes no banho e veem que uns flutuam e outros não, quando notam que o açúcar “desapareceu” no leite, quando enchem e esvaziam recipientes com água, quando misturam diferentes materiais com água e tentam separá-los… A partir de situações do quotidiano o(a) educador(a) encontra pontos de partida pertinentes para uma exploração mais sistematizada destes fenómenos.
Flutua ou não em água?
1. Finalidade: prever, experimentar e observar o comportamento (flutuação/não flutuação) de diferentes objetos na água.
2. Exploração didática: tendo por base um cartaz com diferentes tipos de objetos recortados e um recipiente com água, contar uma história.
- Recriar a situação, colocando em cima de uma mesa diversos objectos e um recipiente com água. 
Incluir objectos (de materiais, tamanhos e pesos diferentes) com comportamentos distintos em água (flutuação/não flutuação), feitos de diferentes materiais não solúveis nela.
- Perguntar às crianças o que acontecerá a cada um dos objetos quando colocado no recipiente com água.
Registar as previsões, fornecendo às crianças imagens dos objetos/materiais a experimentar que devem colar na imagem da bacia/tina consoante as suas ideias (flutua, não flutua).
- Permitir às crianças a experimentação do comportamento dos objetos.
Registar as observações, através da realização de um segundo registo.
- Confrontar as previsões com as observações, introduzindo, no diálogo, os termos “flutua” / “não flutua”. 
- Incentivar as crianças a agruparem os objetos em função do seu comportamento em água, colocando num recipiente vazio e devidamente identificado os que flutuam e noutro os que não flutuam em água.
- Questionar as crianças sobre as razões para a flutuação de uns objetos e para o “afundamento” de outros.
- Sistematizar as ideias apresentadas pelas crianças (exemplo: “flutua, porque é pequeno” - o tamanho, “vai ao fundo, porque é pesado” - o “peso”, “flutuava se tivesse mais água” - quantidade de líquido…”). 
- Confrontar a criança com situações em que razões apontadas não sejam confirmadas. Por exemplo, experimentar e observar o que acontece quando se coloca num recipiente com água: 
Uma bola de plástico grande e outra pequena;
Uma bola de madeira grande e outra pequena;
Uma bola de metal grande e outra pequena;
Objectos “pesados” que flutuam (ex. maçã, balão com gelo, nabo…);
Objectos “pequenos” que afundam (ex. grão de arroz, clip,…);
- Mostrar uma barra de plasticina e perguntar às crianças se flutuará ou não em água e porquê.
- Experimentar e confrontar as previsões com as observações.
- Encorajar as crianças a moldarem a plasticina em forma de barco e experimentarem o que acontece quando este é colocado no recipiente com água.
- Confrontar as crianças com o facto de que uma mesma porção de plasticina afunda se tiver a forma de uma barra ou de uma bola, e flutua se tiver a forma de um barco.
Sistematizar o que as crianças aprenderam com a atividade
- Um objeto flutua na água quando não vai ao fundo.
- A flutuação em água depende dos objetos em causa.
- Objetos com formas idênticas, uns podem flutuar na água e outros não.
- Um objeto que não flutua pode ser moldado e passar a flutuar.
3. Continuando a explorar...
- Explorar com as crianças o que acontece quando se colocam, num recipiente com água, uma cenoura e um nabo, e quando se colocam, no recipiente com água, pedaços (grandes, médios, pequenos, muito pequenos) da cenoura e do nabo. 
- Explorar o que acontece quando se colocam uma maçã e uma batata (de dimensões aproximadamente iguais) num recipiente com água e num recipiente com água com sal.
Atividade sobre forças e movimento
Em muitas das brincadeiras das crianças estão presentes forças que produzem movimento. Esta situação ocorre em várias atividades e as crianças aplicam-na repetidamente, mesmo que de forma inconsciente. Assim acontece quando equilibram cubos de construção para fazer torres, quando montam rampas para os seus carros andarem mais depressa, quando colocam em movimento brinquedos de corda, ou quando se apercebem de que é mais fácil andar de bicicleta quando descem a rua do que quando a sobem. No recreio do jardim-de-Infância ou no parque infantil, os equipamentos que proporcionam momentos de alegria às crianças são também exemplos disso: quando andam no balancé, nos baloiços, no escorrega ou, simplesmente, quando sabem que é preciso chutar a bola com “mais força” quando estão mais longe da baliza.
Qual o melhor escorrega?
1. Finalidade: explorar o deslocamento de objetos rolantes, largados numa rampa (revestida com materiais distintos) e apreciar a influência da natureza do material de revestimento no seu deslocamento.
2. Exploração didática: o Henrique estava a andar no escorrega e disse aos colegas que escorregaria melhor se o escorrega fosse de plástico. No entanto, nem todos concordaram com ele…
- Perguntar às crianças se concordam com o Henrique e tentar saber as suas razões.
- Organizar uma experiência que permita verificar qual o tipo de revestimento que faz deslizar melhor um objeto (ex: carro) numa rampa.
- Preparar diferentes revestimentos para forrar a rampa: cortiça, plástico, lã, cetim, algodão, velcro, esponja, esferovite, papel, borracha, alumínio, estanho… 
A rampa deve ter aproximadamente 1 m de comprimento e uma altura de 5 a 10 cm. A rampa tem apenas por finalidade colocar o objeto em movimento na superfície horizontal, com a mesma força inicial instantânea.
- Ensaiar cada um dos revestimentos, largando o objeto do cimo da rampa.
- Assinalar o local de chegada em cada caso (ex. utilizar uma bandeira, um marcador).
- Medir a distância percorrida pelo objeto, utilizando fios de cor diferente. 
Registar, colando os fios debaixo do desenho de cada revestimento ensaiado, medindo com uma régua o seu comprimento, e registando-o no respetivo local.
Sistematizar o que as crianças aprenderam com a atividade
- Quando um objeto rolante é largado de uma rampa, ele desloca-se ao longo da rampa e continua na horizontal até parar.
- A distância percorrida pelo objeto na horizontal depende do material de que é revestida a rampa.
- Quando o revestimento é de cortiça, lã, algodão, areia… a distância percorrida pelo objeto é menor do que nos casos em que é revestida de cetim, plástico, papel, metal…
3. Continuando a explorar...
- Descobrir “o par ideal” (material do objecto rolante e revestimento da rampa) “mais lento”/”mais rápido”.
Atividade sobre a luz
Desde muito cedo que as crianças brincam com a luz, descobrem a sua sombra e contactam com espelhos. O espelho em que se veem logo pela manhã, os espelhos do carro no qual “fazem caretas”, os espelhos “barrigudos” que veem nas estradas, os espelhos “mágicos” na casinha da feira, o medo que sentem das sombras gigantescas que por vezes veem no seu quarto, as “magias” que as deixam perplexas pelo poder sobrenatural que julgam ter os ilusionistas… 
A luz e os fenómenos óticos são, desta forma, um domínio do quotidiano das crianças, sobre o qual se deve desenvolver a sua compreensão para perceberem melhor o mundo que as rodeia, desmistificando crenças e superstições.
1. Finalidade: observar, experimentar e verificar as características da sombra dos objetos, quando alterada a sua posição em relação a uma fonte de luz.
2. Exploração didática: depois de assistirem a um teatro de sombras (Ver no livro referido no final deste artigo uma atividade de teatro de sombras), as crianças podem aperceber-se de que o tamanho das sombras observadas ao longo da peça mudava, apesar de ter sido utilizado sempre o mesmo boneco.
- Questionar as crianças sobre a razão por que durante o teatro de sombras o tamanho do boneco se alterava.
- Propor a realização de uma atividade de sombras para se observarem as diferentes sombras conseguidas com o seu corpo quando colocado a distâncias diferentes de um foco de luz.
Quando mudamos a posição do objeto estamos a “jogar” com duas variáveis, pois para uma fonte luminosa e alvo fixos, quando se aumenta a distância do objeto ao alvo diminui-se a distância do mesmo à fonte luminosa e vice-versa. Este efeito poderá ser minimizado se usarmos uma fonte de luz direcionada.
- Fazer experiências com a sombra, fazendo a luz incidir de perto ou de mais longe. Registar a observação. 
A sala deverá ser muito escurecida para que seja possível observar as sombras conseguidas de forma nítida.
- Colocar uma luz forte numa extremidade da sala, e assinalar com cores diferentes dois pontos no chão, um mais perto e outro mais afastado da luz.
- Solicitar a uma criança que se coloque no primeiro ponto, observando o tamanho da sua sombra. Contorná-la (a parede deve ser revestida com papel de cenário) e marcá-la com a cor correspondente.
- Repetir o procedimento para o outro ponto da sala, sem deixar de perguntar às crianças se acham que o tamanho da sombra que se vai conseguir será maior, igual ou menor. 
Registar as observações e comparar os resultados.
- A atividade poderá ser repetida com crianças mais altas e mais baixas para se verificar que o resultado é sempre o mesmo. 
- Ensaiar posições de forma a que duas crianças de alturas diferentes originem sombras da mesma altura.
Sistematizar o que as crianças aprenderam com a atividade 
- A nossa sombra aparece sempre do lado contrário ao do foco de luz.
- Quando nos afastamos ou aproximamos do foco de luz, o tamanho da nossa sombra muda.
- Quanto mais afastados estivermos do foco de luz, mais pequena é a nossa sombra.
- Quanto mais próximo estivermos do foco de luz, maior será a nossa sombra.
3. Continuando a explorar...
- Verificar a variação do número de sombras conseguidas com a utilização de várias fontes de luz.
- Observar a variação da sombra de um objeto quando se varia a posição de fonte de luz em relação ao objeto.
- Verificar o tipo de sombra de objetos idênticos feitos de materiais diferentes (opacos, transparentes e “translúcidos”).
Atividade sobre objetos e materiais
Desde que nascem, as crianças estão em contacto e interagem com objetos e materiais e através da sua manipulação vão constatando algumas das suas propriedades/características. Um bom exemplo disso são os seus brinquedos, onde encontram bonecas moles ou duras (de pano ou de plástico), carrinhos feitos de materiais diferentes (plástico, madeira ou metal…). Os seus livros podem ser ilustrados com materiais de texturas diferentes ou com efeitos ou relevos de impressão variados. Muitas crianças mostram já preferência por peças de roupa feitas de materiais que consideram mais macios, rejeitando aqueles mais ásperos (“que picam”), e sabem que quando está mais frio vestem camisolas de lã. Todas estas situações demonstram a pertinência da exploração da temática dos objetos e materiais e podem servir de contextualização para explorações mais sistematizadas com as crianças.
Como fazer novas cores
1. Finalidade: prever, observar e experimentar o que acontece quando misturamos materiais com diferentes cores.
2. Exploração didática: o João e a Teresa estão a tentar fazer uma árvore em plasticina, mas só têm 3 cores: amarelo, azul (ciano) e vermelho (magenta). Querem moldar folhas de cor verde e o tronco de cor castanha. Como podem fazê-lo?João: Eu acho que se misturarmos plasticina de cores diferentes conseguimos fazer outras cores.
Teresa: Eu acho que não. Se as juntarmos vamos ter uma mistura mas com as três cores.
- Dialogar com as crianças sobre a situação apresentada pelo João e a Teresa.
- Identificar as ideias das crianças em relação às opiniões do João e da Teresa e planificar com elas uma experiência para saber qual deles tem razão.
- Disponibilizar plasticina de cor amarela, azul (ciano), vermelha (magenta).
Recomenda-se o uso de plasticina de farinha (farinha, água e corantes).
- Escolher as cores de plasticina que querem juntar para obterem outras cores.
- Experimentar juntando e moldando porções iguais de plasticina de cor diferente.
Registar o que pensam que vai acontecer.
- Confrontar as previsões com as observações feitas.
- Experimentar juntar porções sucessivas de plasticina de cor branca a plasticina de várias cores, verificar o que acontece e registar.- Repetir o procedimento anterior com plasticina de cor preta.
- Refletir com as crianças sobre o processo de obtenção de plasticina com cor diferente e sobre a impossibilidade de reverter o processo.
Sistematizar o que as crianças aprenderam com a atividade 
- Misturando a plasticina de cores primárias duas a duas e em iguais quantidades, obtêm-se outras três cores: violeta (juntando azul e magenta); laranja (juntando amarelo e magenta) e verde (juntando amarelo e azul).
- Juntando a plasticina de cor branca a plasticina de qualquer cor, obtém-se plasticina com a mesma cor, mas mais clara.
- Juntando a plasticina de cor preta a plasticina de qualquer cor, obtém-se plasticina com a mesma cor, mas mais escura.
- Depois de obtida plasticina de uma dada cor não é possível recuperar as porções de plasticina nas cores que a originaram.
3. Continuando a explorar...- Desafiar as crianças a obter uma dada cor, juntando plasticina de cores e em porções diferentes.- Repetir o desafio, usando tintas (ex. guache) e/ou corantes alimentares.
Atividades sobre seres vivos
Os animais e as plantas fazem parte do dia-a-dia das crianças através de um contacto mais ou menos direto, quer seja em casa, no jardim-de-Infância ou que observem em visitas ao Jardim Zoológico, quintas ou quando fazem um piquenique. Muitas vezes são personagens de livros ou desenhos animados na televisão ou no cinema, e também dos bonecos e peluches com que brincam. Animais e plantas com cores e formas diversificadas que sofrem mudanças ao longo do tempo ou com o passar das estações são motivo de fascínio para crianças pequenas, despertando-lhes muito naturalmente o interesse para a exploração de diversos aspetos relacionados com o mundo animal e vegetal.
Folhas aos montes: como arrumá-las?
1. Finalidade: recolher, observar e agrupar folhas em função de algumas das suas características (cor, forma, tamanho, recorte, nervuras, textura…). 
2. Exploração didática: durante a visita a um pinhal, a um parque ou a um jardim, recolher exemplares de folhas que se encontrem caídas no solo.
- Colocar sobre uma mesa as folhas recolhidas durante a saída de campo.
- Observar e dialogar acerca da sua diversidade.
- Propor que agrupem as folhas segundo critérios à sua escolha. 
- Dialogar sobre os critérios usados na formação dos grupos de folhas. 
- Explorar outros critérios não referidos pelas crianças (ex. a cor, o tamanho, a forma, o recorte, as nervuras, a textura…).
Registar a constituição dos diferentes grupos de folhas, utilizando o seu desenho/imagem através de diferentes técnicas (ex. contorno, decalque, desenho, fotografia, digitalização, fotocópia, tingimento… ).
- Explorar outras formas de classificação das folhas, nomeadamente as que se usam na nossa alimentação (louro, salsa, hortelã, orégãos, chá, couve, alface…), na alimentação de outros animais (folhas de eucalipto: koalas, folhas de amoreira: bichos da seda,…), na produção de medicamentos, na obtenção de corantes naturais, na produção de cosméticos, na decoração….
- Propor a construção de um herbário com as folhas recolhidas, colocando-as, por exemplo, no interior de listas telefónicas, revistas… e prensando-as. Para obtenção de exemplares secos a três dimensões deve ser usado bórax.
- Pesquisar sobre as plantas a que as folhas pertencem e colar imagens identificativas dessas plantas junto ao exemplar da respetiva folha no herbário.
Sistematizar o que as crianças aprenderam com a atividade 
- As folhas têm cores diversas (verdes, amarelas, vermelhas, castanhas…).
- As folhas têm tamanhos diversos.- As folhas têm formas diversas (forma de lança, de foice, de círculo, de agulha, de “coração”, …).
- As folhas têm texturas diversas (lisas/rugosas, macias/ásperas, peludas/nuas…).
- As folhas têm uma ou várias nervuras.- As folhas têm recortes diversos (liso, dentado, serrado,…).
- As folhas podem ser usadas na alimentação, na produção de medicamentos, na cosmética, na decoração…
3. Continuando a explorar...
- Realizar atividades similares com outras partes constituintes da planta (raízes, caules, flores, …).
- Construir um portfolio com as diferentes partes constituintes de uma planta, usando exemplares secos, fotografias, imagens, desenhos…
A educação em ciências, como via de promoção da literacia científica, é um contexto privilegiado para o desenvolvimento de competências das crianças. Deste modo, o(a) educador(a) deverá encarar estas atividades ou quaisquer outras que desenvolva com as crianças como uma potencial via de desenvolver, de forma integrada, conhecimentos, capacidades e atitudes a serem mobilizados em situações diversas, mais ou menos familiares às crianças.Neste contexto, deve haver uma forte preocupação em desenvolver competências, as quais poderão ir sendo ampliadas e consolidadas ao longo do processo de desenvolvimento da criança. Considerando que as competências não se ensinam por métodos transmissivos, é importante que a criança tenha a oportunidade de experimentar situações diversificadas e estimulantes, que lhe permitam desenvolver essas competências de forma integrada.
Na brochura "DESPERTAR PARA A CIÊNCIA - ACTIVIDADES DOS 3 AOS 6" encontrará algumas ideias de apoio para desenvolver estas atividades, bem como outras. Disponível em: 
A brochura é da autoria de Isabel P. Martins et al e é uma edição do Ministério da Educação/Direcção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular (2009).

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